Uma distância de 80 anos
Thiago Corrêa
Em meio a agitação da feira que virou a rua Sete de Setembro, no bairro da Boa Vista, o escritor Gilvan Lemos tirava uma soneca pós-almoço em seu apartamento. Os sonhos do escritor foram interrompidos pelo barulho do interfone para lhe avisar a chegada da reportagem. Esbanjando simpatia, apesar da já conhecida timidez, o escritor pediu licença para pegar um “cigarrinho” no quarto ao lado, antes de dar uma entrevista sobre seus 80 anos, completados hoje.
Já sentado no sofá da sala, depois da desfeita do repórter em não aceitar um “cigarrinho”, Gilvan Lemos pergunta: “Você é da campanha?”. Diante da nova negativa, o escritor relaxa e explica: “Não deixo de fumar, fumo desde os 23 anos e nunca tive nada”. A saúde, porém, já não é a mesma. “Faz anos que não escrevo nada. Quando começo as palavras somem, deixo partes em branco. Olhe, está um sacrifício danado”, confidencia.
Nem mesmo as homenagens que vêm recebendo pelas oito décadas têm animado Gilvan Lemos. “Você leu as matérias sobre os 80 anos de Samico? É o mesmo caso, acho que isso é coisa dos Gilvans. Deviam era fazer uma missa de sétimo dia”, brinca ele. Ainda assim, como parte das comemorações, a editora Bagaço relança o romance “Espaço Terrestre”, sexta-feira, em São Bento do Una, onde nasceu o autor.
O município vem festejando a data desde o começo do ano. No dia 5 de janeiro, com uma sessão solene na Câmara Municipal com a presença de Gilvan Lemos, dando início a uma série de eventos como a realização de um concurso literário e aulas da Oficina do escritor Raimundo Carrero, além um selo comemorativo que deve ser lançado ainda este mês. Já a Bagaço, ainda planeja lançar uma caixa com os oito livros do autor publicados pela editora.
“Até disse a ela (Inês Koury, da Bagaço) que era perda de tempo, já pensou quanto essa caixa vai custar?”, disse Gilvan Lemos, evidenciando sua decepção com a literatura. Mesmo assim o brilho do menino que um dia desenhava histórias em quadrinhos em São Bento do Una retorna aos seus olhos quando lembra que conseguiu emplacar textos em duas coletâneas que estão para sair: “Antologia do Conto Nordestino”, da Record, e “Antologia do Estado de São Paulo”, reunindo contos que foram publicados no jornal paulista.
Uma chama que também cresce quando o octogenário fala de seus livros preferidos. “Geralmente é o último, mas gosto muito do ‘Emissários do Diabo’ e de ‘O Anjo do Quarto Dia’. Também gosto do primeiro (’Noturno sem Música’) porque tem muita coisa da minha vida em São Bento do Una”, lista. Da cidade, ele guarda algumas lembranças. “O primeiro livro causou uma revolução lá, acharam imoral, até o padre fez sermão”, recorda.
Apesar do desânimo para continuar a escrever, Gilvan Lemos ainda sabe onde encontrar histórias. “Às vezes, ela vem uma conversa da família, uma lembrança. Quando sento na máquina já sei o que fazer, agora tem coisa que se modifica, vai progredindo. Não escrevo romance, eu vivo o romance porque estou participando dele, até quando estou lendo”, explica.
Mas o entusiasmo fica por aí. “Estou desgostoso com a literatura. Vejo os livros que fazem sucesso, pego para ler e acho tudo uma porcaria”, suspira o escritor. Diante da vista do seu apartamento do décimo segundo andar, depois de fumar seu terceiro “cigarrinho”, Gilvan Lemos conta que quando chegou ao Recife, em 1949, ainda não havia nenhum prédio, como se ele já não combinasse com a paisagem à sua volta.