Retrô com gosto de clássico
Thiago Corrêa
Mesmo para quem cobre música e recebe disco quase todo dia, é difícil encontrar algo que realmente mereça espaço. Mas, quando menos se espera, surgem álbuns que nos fazem voltar ao tempo e esquecer o resto do mundo, como se o novo amuleto justificasse todas as nossas idiossincrasias. E eis que, sem alarde, desponta o talismã “Pareço Moderno”, segundo trabalho da banda paulista Cérebro Eletrônico.
Antes de falar sobre a pérola musical, porém, é preciso lembrar que o grupo não chega a ser um completo desconhecido para o público pernambucano. Seu projeto paralelo, Jumbo Elektro, tocou por aqui no festival Rec Beat, no carnaval de 2006. As propostas, claro, são outras, embora haja resquícios da corrente pop-escrachada da Jumbo Elektro.
A principal diferença está nas dosagens. A Cérebro Eletrônico diminui as rédeas da anarquia, fazendo um rock misturado a barulhinhos de robô dos anos 80 e tropicalismo, nas várias vertentes que o termo tende a se espalhar. Tem seu lado Caetano Veloso, que aflora na magnífica “Dê”, passa pela tangente das soluções irônico-criativas de Tom Zé e se aproxima dos Mutantes, com arranjos inteligentes e um tom de brincadeira que beira a psicodelia.
O resultado é uma construção que poderia ser confundida com um castelo de cartas (dada a sua delicadeza, requinte e precisão), mas com a solidez de uma muralha antiga. A beleza de “Pareço Moderno” está justamente nesse jogo contraditório que a banda propõe, sugerindo caminhos para, em seguida, subvertê-los. Algo que já pode ser percebido pelo título do disco. Ainda que o grupo faça uma linha retrô, o som possui o frescor da liberdade criativa.
Ao contrário de outros exemplos, as experimentações sonoras de Tatá Aeroplano (voz e efeitos com brinquedos), Fernando Maranho (guitarra e voz), Izidoro Cobra (baixo e voz), Dudu Tsuda (teclado e voz) e Gustavo Souza (bateria e voz) não implicam na perda de emoção. Apesar do nome Cérebro Eletrônico, que sugere a racionalidade humana aliada à frieza das máquinas, a banda tem alma, grande o suficiente para se espalhar pelos ouvidos do público e despertar alguma coisa em nosso ser.
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