Arquivo para Agosto 6th, 2008

06
Ago
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RECITAL: A literatura com voz

A literatura com voz
Thiago Corrêa

A idéia de que a literatura é uma arte solitária vem perdendo força no Recife. Cada vez mais é possível encontrar pela cidade escritores e poetas fora dos casulos, lendo e recitando seus textos para uma platéia formada por colegas, estudantes, pedestres, bêbados e crianças. Um público heterogêneo, que, por curiosidade ou sensibilidade, resolveu parar por alguns instantes e se transformar em leitores.

Eventos como o Quartas Literárias, o Café com Poesia, Quarta às Quatro, Nós Pós e mesmo as apresentações dos dito poetas marginais e a formação de projetos como o Outras Paradas e o Vozes Femininas remontam a tradição oral da literatura pernambucana. Uma forma de expressão que já foi comum, mas foi se isolando no silêncio da complexidade lingüística, deixando as rimas faladas com os antigos cordelistas.

“A gente vivia muito focado na escrita. Com a TV e o rádio isso mudou e fez ressurgir o corpo”, defende o jornalista e poeta André Telles – ou Trelles, como prefere ser chamado – que escreveu uma tese de mestrado sobre o assunto. No início da década de 80, um grupo de jovens passou a recitar seus poemas aos sábados nas proximidades da hoje mítica Livro 7. Era o início do Movimento dos Escritores Independentes, que reuniu nomes como Chico Espinhara, Fátima Ferreira, Hector Pellizi, Wilson Freire, Valmir Jordão e Cida Pedrosa.

“Era uma forma de protesto também, estávamos na ditadura. Depois que a gente chamava a atenção das pessoas, partíamos para vender nossos textos. Era o cocoricó da galinha”, lembra o poeta Valmir Jordão. “Pegamos o exemplo da poesia popular. Vendi mil cópias do meu livro ‘Resto do Fim’ nos primeiros quatro meses. Achávamos, e ainda acho que esse é o caminho”, conta Cida Pedrosa.

Para o escritor Raimundo Carrero, a retomada da tradição oral é uma reação de defesa dos escritores. “É uma forma da literatura retomar seu espaço na mídia, para competir com o cinema e a música como um grande espetáculo”, opina Carrero, que no fim do ano passado experimentou se colocar no palco lendo seu livro “O Amor Não Tem Bons Sentimentos” e pretende seguir nesse caminho, fazendo leituras dramáticas nos teatros.

Uma tendência de aproximação com outras linguagens que já pôde ser vista na apresentação do grupo Vozes Femininas, no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG). Formado por Cida Pedrosa, Mariane Bígio, Silvana Menezes e Suzana Morais; o grupo usa figurino e elementos cênicos para compor a atmosfera das poesias. “Uma das coisas mais salutares é criar interfaces. Ganha a literatura e ganha o teatro. O segredo é saber estreitar as relações com outras artes e mídias. A internet ainda é um suporte de divulgação, mas daqui a pouco se integra com linguagem, criando outra coisa”, analisa Cida.

Além de participar do Vozes Femininas e do Outras Paradas, Cida ainda está desenvolvendo um projeto para teatro em parceria com o poeta Miró. “Não tenho muito essa preocupação em misturar as linguagens. Tenho um pouco de ator e quero ir pro teatro, com cenário, luz, elementos cênicos e textos nossos”, revela Miró.

Já o poeta Fernando Chile, apesar de se destacar no FIG com o Outras Paradas, prefere se manter no campo da literatura. “Foi uma crise que encarei. Procuro não descambar pro teatro e ficar de olho na poesia. Minha praia é a literatura, não tenho habilidade cênica, faço entonações. Me seguro entre um e outro, não gostaria que ficasse no teatro”, pondera Chile.

06
Ago
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RECITAL: Os palcos para a literatura falada

Os palcos para a literatura falada
Thiago Corrêa

De oito anos para cá, o Recife começou a assistir a criação de eventos específicos para a literatura falada. Um dos mais antigos é o Quartas Literárias, que desde 2000 acontece todas as últimas quartas do mês, no Centro de Cultura Luiz Freire. Idealizado pela escritora Silvana Menezes, o evento já chegou ter um público de quase 800 pessoas e, em dias fracos, reúne cerca de 50 pessoas.

“Começou como um espaço para os funcionários do Centro lerem o que escreviam. Era para ser uma brincadeira interna, mas desde o primeiro dia já se tornou um evento. Aí vimos a necessidade de um espaço como esse”, lembra Silvana. Segundo ela, qualquer pessoa pode participar. “Não fazemos julgamento de qualidade, queremos despertar o gosto pela leitura e escrita”, explica.

Ainda nas quartas-feiras, os literatos também encontram espaço para ler seus textos no Quarta às Quatro, que acontece desde 2003 na União Brasileira de Escritores. Outra opção é o Café com Poesia, promovido pela Assembléia Legislativa, nas últimas quintas do mês, às 9h. O evento começou há dois anos na biblioteca da Alepe, passou para o auditório e já chegou ao plenário da Casa de Joaquim Nabuco.

Embora seja o caçula, o Nós Pós vem conquistando cada vez mais adeptos. Em 14 edições, o evento já contou com a participação de nomes como Raimundo Carrero e Delmo Montenegro. “Como tudo hoje em dia é espetáculo, estamos usando isso. Foi uma escolha que tivemos que fazer e deu certo”, conta um dos organizadores do grupo, Artur Rogério.

06
Ago
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RECITAL: No caminho da profissionalização

No caminho da profissionalização
Thiago Corrêa

Se antes os poetas ditos marginais usavam a voz para vender seus fanzines e livros, hoje, as suas interpretações cênicas já começam a ser valorizadas. Poetas como Miró, Valmir Jordão e Malungo conseguem viver dos cachês recebidos pelas suas apresentações em escolas, colégios, universidades e sindicatos. “Ainda não é o ideal, mas já está bem melhor. Nós, poetas precisamos nos dar mais respeito e sair dessa imagem marginal, porque isso traz preconceito”, avalia Malungo.

Jordão acredita que a mudança veio após uma das edições do Encontro Celina de Holanda de Poetas Recitadores, no Cabo de Santo Agostinho. “A partir dali, a coisa tomou um rumo mais profissional. Mas foi uma coisa espontânea, a gente já fazia isso para vender nossos livros”, analisa Valmir Jordão, que hoje cobra cerca de R$ 150 por apresentação.

“Poeta não tem que andar sujo, é para andar bonito, elegante. Não estou rico, mas hoje não falta nada em minha casa. A poesia está me dando coisas que passei muito tempo para ter”, comemora Miró. Nesse processo de profissionalização, ele acredita que pouca coisa mudou na sua apresentação. “Quando subo no palco viro bicho. Mas me aprimorei no sentido de sacar o público, de saber onde estou e o que falar em cada lugar”, avalia.