A literatura com voz
Thiago Corrêa
A idéia de que a literatura é uma arte solitária vem perdendo força no Recife. Cada vez mais é possível encontrar pela cidade escritores e poetas fora dos casulos, lendo e recitando seus textos para uma platéia formada por colegas, estudantes, pedestres, bêbados e crianças. Um público heterogêneo, que, por curiosidade ou sensibilidade, resolveu parar por alguns instantes e se transformar em leitores.
Eventos como o Quartas Literárias, o Café com Poesia, Quarta às Quatro, Nós Pós e mesmo as apresentações dos dito poetas marginais e a formação de projetos como o Outras Paradas e o Vozes Femininas remontam a tradição oral da literatura pernambucana. Uma forma de expressão que já foi comum, mas foi se isolando no silêncio da complexidade lingüística, deixando as rimas faladas com os antigos cordelistas.
“A gente vivia muito focado na escrita. Com a TV e o rádio isso mudou e fez ressurgir o corpo”, defende o jornalista e poeta André Telles – ou Trelles, como prefere ser chamado – que escreveu uma tese de mestrado sobre o assunto. No início da década de 80, um grupo de jovens passou a recitar seus poemas aos sábados nas proximidades da hoje mítica Livro 7. Era o início do Movimento dos Escritores Independentes, que reuniu nomes como Chico Espinhara, Fátima Ferreira, Hector Pellizi, Wilson Freire, Valmir Jordão e Cida Pedrosa.
“Era uma forma de protesto também, estávamos na ditadura. Depois que a gente chamava a atenção das pessoas, partíamos para vender nossos textos. Era o cocoricó da galinha”, lembra o poeta Valmir Jordão. “Pegamos o exemplo da poesia popular. Vendi mil cópias do meu livro ‘Resto do Fim’ nos primeiros quatro meses. Achávamos, e ainda acho que esse é o caminho”, conta Cida Pedrosa.
Para o escritor Raimundo Carrero, a retomada da tradição oral é uma reação de defesa dos escritores. “É uma forma da literatura retomar seu espaço na mídia, para competir com o cinema e a música como um grande espetáculo”, opina Carrero, que no fim do ano passado experimentou se colocar no palco lendo seu livro “O Amor Não Tem Bons Sentimentos” e pretende seguir nesse caminho, fazendo leituras dramáticas nos teatros.
Uma tendência de aproximação com outras linguagens que já pôde ser vista na apresentação do grupo Vozes Femininas, no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG). Formado por Cida Pedrosa, Mariane Bígio, Silvana Menezes e Suzana Morais; o grupo usa figurino e elementos cênicos para compor a atmosfera das poesias. “Uma das coisas mais salutares é criar interfaces. Ganha a literatura e ganha o teatro. O segredo é saber estreitar as relações com outras artes e mídias. A internet ainda é um suporte de divulgação, mas daqui a pouco se integra com linguagem, criando outra coisa”, analisa Cida.
Além de participar do Vozes Femininas e do Outras Paradas, Cida ainda está desenvolvendo um projeto para teatro em parceria com o poeta Miró. “Não tenho muito essa preocupação em misturar as linguagens. Tenho um pouco de ator e quero ir pro teatro, com cenário, luz, elementos cênicos e textos nossos”, revela Miró.
Já o poeta Fernando Chile, apesar de se destacar no FIG com o Outras Paradas, prefere se manter no campo da literatura. “Foi uma crise que encarei. Procuro não descambar pro teatro e ficar de olho na poesia. Minha praia é a literatura, não tenho habilidade cênica, faço entonações. Me seguro entre um e outro, não gostaria que ficasse no teatro”, pondera Chile.