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17
Nov
08

Estudando a Bossa: Nordeste Plaza – Tom Zé

A nova Bossa Nova de Tom Zé
Thiago Corrêa

Os cabelos arrepiados, olhos fugidios e gestos nervosos não negam a condição de cientista maluco da música brasileira a Tom Zé. O baiano de Irará, de tanta coisa para falar, cantar e comunicar, mal cabe no seu corpo franzino. Aos 72 anos, o músico mostra uma vitalidade criativa que só pode ser explicada por sua curiosidade de menino. Com a dedicação dos inventores, Tom Zé se mete a desconstruir o que está a sua volta para entender como funcionam.

Um ímpeto que, em 1976, fez ele desmontar o samba e gravar o clássico “Estudando o Samba”. Depois, o sucesso do pagode lhe chamou a atenção e o motivou a fazer “Estudando o Pagode – Segregamulher e Amor”, em 2005. Agora, em meio às comemorações pelos 50 anos da Bossa Nova, o baiano pega o ritmo de Tom Jobim como lição e lança “Estudando a Bossa – Nordeste Plaza”, que sai pela Biscoito Fino.

Como um bom aluno tropicalista, Tom Zé não se limita a repetir os ensinamentos dos seus professores. O baiano de Irará destrincha os ritmos e, ao separar suas peças, passa a montá-las novamente. O resultado, porém, é outro. Vai além do samba, do pagode e da Bossa Nova. Nesse processo de reconstrução, novos significados são dados aos tijolos musicais que fundamentaram o sentimento de brasilidade, cimentando-os com a musicalidade própria e única de Tom Zé.

No caso do gênero criado por João Gilberto, estão lá os vocais baixinhos, a harmonia dos backing vocals, o violão sincopado, as onomatopéias melódicas e a leveza imagética do barquinho flutuando no mar. Elementos que na mão de Tom Zé são usados como detalhes para enriquecer as características da sua sonoridade, feita em cima da estridência do cavaquinho, dos bandolins nervosos e das vozes delicadas de um time respeitável de convidados, como Marina De La Riva, Mônica Salmaso, Badi Assad, Zélia Duncan, Fernanda Takai e David Byrne.

Questões estéticas que se somam à série de citações presentes nas letras. Dotadas do humor fino e cortante de Tom Zé, as músicas recontam a época da Bossa Nova, trazendo de volta personagens como Elis Regina, Leila Diniz, Tom Jobim, Miéle, Carlos Lyra e outros nomes grandiosos que desenvolveram o ritmo. Um rico universo que, no imaginário do baiano, transforma-se em letras geniais como “Brazil, Capital Buenos Aires”, onde o compositor ironiza o aparecimento do Brasil para o mundo através da Bossa Nova.