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19
Nov
08

Entrevista | Ronaldo Correia de Brito

Nesse livro você escreve um ensaio sobre o Sertão, sua origem e suas mudanças. Como você entende essa transformação?
A população do campo é mínima, o Sertão é um deserto inabitado. Falo de um mundo real como vejo hoje, mas impregnando ele de mágica, de uma mitologia mais antiga, que já não existe mais. Minha busca em “Galiléia” foi aproximar dois continentes que se tornaram incomunicáveis. A população que hoje habita esse universo está desenraizada. O que sobrevive não é como prática de sobrevivência e de costume, mas como folclore, brincadeira. Monta-se a cavalo não para pegar boi para brincar, para ganhar prêmios. As pessoas insistem na romantização de um mundo rural que não existe.

“Galiléia” marca uma ruptura da sua obra com o Sertão mítico?
Tento inaugurar um novo tempo para esse Sertão. Nessa obra, tento fazer com que as pessoas olhem para esse mundo que foi tão estereotipado pelo cinema e por novelas de televisão com sotaques terríveis. Tento fazer com que as pessoas enxerguem uma perspectiva real, mas não abandono o mito. O mito não é algo que está no plano imaginário, mas é algo que dialoga com o real. Se você reparar o personagem Domísio, que morreu há 300 anos, de fato ele aparece. Quando Adonias vai até lá e conversa com ele, é como se Domísio estivesse de fato ali, esperando por esse encontro. Isso exige um certo esforço do leitor, alguns leitores tiveram dificuldade em entrar nesse clima, em que mito e realidade se confundem.

Essa história de Domísio está no conto “Faca”. Como é a relação de “Galiléia” com sua obra?
É uma história familiar que aconteceu de fato e, obviamente, reconto como ficção. Conto ela no livro “Faca” e aparece parcialmente em “O Livro dos Homens”, no primeiro conto “O Que Veio de Longe”. A literatura para mim é a construção de um universo. Se você pega um escritor como Gabriel García Márquez, ele tem um universo onde todos os personagens são comunicantes. É como se personagens passassem de um lugar para outro. Acho que consigo isso fazendo com que pedaços de histórias reapareçam. Elas vão se reorganizando, se reestruturando, vão sendo recontadas, aparecem de nova forma. É uma maneira de criar um mundo, de inventar um universo ficcional.

Nesse seu universo, existe alguma relação com Camus? Isso é intencional?
Minha geração é pós-existencialista. Fui marcado pelo existencialismo camusiano, como, sem ter sido marcado por Camus, há uma semelhança grande entre o Fabiano de “Vidas Secas” e o Mersault de “O Estrangeiro” de Camus. Acho que no Sertão é bem fácil de encontrar esse pós-existencialismo, tanto que o filósofo que eu cito é Cioran, um filósofo romeno existencialista. Parte da justificativa do crime de Adonias, ele busca na filosofia de Cioran, que é extremamente pessimista. Os livros não estão isolados, eles dialogam. Se você pega o absurdo no teatro, ele dialoga com o absurdo na literatura, com o existencialismo; os simbolistas dialogam uns com os outros. Não é nada proposital, é mais do que natural que eu cite ou referende Camus.

Como é seu processo criativo? Você faz pesquisas antes de escrever?
Eu trabalho com uma memória inventada. Minha memória já é bastante contaminada pela fantasia. Mas certos elementos, mais sociológicos, mais antropológicos, é resultado de exaustivas leituras e pesquisas que são adaptadas para essa ficção.

ENTREVISTA | RONALDO CORREIA DE BRITO

Seus dois livros anteriores eram de contos. Como foi essa experiência como o romance?
Foi um processo difícil, é diferente. Sou um contista muito econômico e, mesmo nessa narrativa enxuta, já sou rigoroso, contido, exato. Como uma pessoa dessas pode partir para um romance, que é um tipo de literatura em que tudo cabe, e você tem que dissertar, encher páginas e páginas com cenários? Se você perceber eu adotei um recurso de usar muitos enredos. Isso é por conta da minha narrativa, muito seca. Trabalho com ossos, quase não uso gordura.

Mas você sentiu mais liberdade em explorar a linguagem?
Sim, por outro lado, o romance possibilita coisas que não cabem num conto. Discussões, longas brincadeiras, como a tensão divagante de Adonias em que eu ilustro deixando longos buracos na narrativa e também remete aos livros do avô, parcialmente comidos pelas traças e cupins. Brinco com isso fazendo buracos na escuta que ele faz. O romance permite diálogos, longas conversas, conceituações. Levanto questões da nossa formação cultural e social. Isso só é possível no romance. O conto não deixa, não tem lugar. No romance cabe tudo e você pode jogar nele o que quiser.