“Kind of blue” de Miles Davis é
disco para ouvir por mais 50 anos
Thiago Corrêa
É uma pena que não se possa escrever de improviso no jornal. As técnicas usadas por Jack Kerouac para escrever o livro “On the road” poderiam ser vistas como motivo de demissão por justa causa. Afinal, consta que o consumo de benzedrina esteve entre as estratégias do escritor americano para aproximar sua narrativa aos improvisos do jazz. Mas bem que essas sensações seriam bem vindas para escrever sobre “Kind of blue”, álbum clássico de Miles Davis que completou meio século este ano.
Gravado em apenas duas sessões no Columbia 30th Street Studios, em Nova Iorque, o disco completa 50 anos com uma edição comemorativa da Sony Music. O álbum traz dois CDs e um DVD com os vídeos “Celebrating a masterpierce” e “The sound of Miles Davis”. O primeiro é um curto documentário que foca no processo de construção artística do disco, enquanto o outro se trata de um programa de televisão exibido em 1959 com as participações de Miles Davis e John Coltrane.
Embora o DVD seja um grande atrativo, a parte estritamente musical não fica atrás. Nessa edição, que chega com a promessa de ser definitiva, estão versões originais, gravações anteriores que já remetiam ao disco e restos de estúdio como as tomadas alternativas de “Flamenco sketches”, “Blue in green”, “All blues”, “So what” e “Freddie freeloader”. São extras que nos fazem admirar ainda mais a ebulição criativa gerada pela confluência de talentos reunidos em “Kind of blue”.
No mesmo disco estão o trompete de Miles Davis, o baixo de Paul Chambers, os pianos de Bill Evans e Wynton Kelly, os sax de John Coltrane e Cannonball Adderley e a bateria de Jimmy Cobb. Uma junção de peças que ocorreu no momento certo. Segundo o crítico Francis Davis, em texto que recheia o encarte, “Kind of blue” deu asas aos sete criadores do disco, que partiram para novos vôos artísticos, abrindo novos horizontes jazzísticos.