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04
Abr
09

A herança do furacão Kurt Cobain

A herança do furacão Kurt Cobain
Thiago Corrêa

Amanhã se completam 15 anos da morte de Kurt Cobain. Com um tiro na cabeça, o líder do Nirvana juntou-se a Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Ian Curtis no panteão de perdas precoces de lendas do rock’n'roll. O trator Nirvana, que explodiu com o antológico álbum “Nevermind” (1991), corroeu os pilares de neon das bandas dos anos 80 com uma postura mais realista, sem muita pose nos palcos, ecoando em diversas partes do mundo.

No Recife, cerca de duas mil pessoas ficaram sabendo da morte de Kurt Cobain através do produtor Paulo André Pires, que anunciou a notícia na segunda edição do Abril Pro Rock. “A gente tinha acabado de receber os primeiros discos do ‘Da lama ao caos’ e estava jogando uns para a plateia, quando fiquei sabendo. Anunciei na hora, eu sabia que a molecada era envolvida com a história edificante do cara”, recorda Paulo André.

“A reação foi a de não acreditar, pareceu com a notícia da morte de Chico Science”, completa o produtor. Uma comparação que não chega a ser exagero, tamanho o impacto gerado pelo Nirvana na época e cujas influências ainda podem ser percebidas em bandas da atualidade. “O Nirvana foi fundamental para os anos 90. O grunge influenciou o novo rock de bandas como o Strokes que, por sua vez, está influenciando outras. Ou seja, o Nirvana ainda está aí”, analisa Helder Bezerra, guitarrista da Sweet Fanny Adams.

O abalo sísmico gerado pelo movimento grunge – do qual o Nirvana foi o maior expoente e resultou em nomes importantes como Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden – também foi sentido no solo pantanoso do Recife. “Sempre falo que um dia a gente vai se vingar deles, pois era comum ver uns caras na Boa Vista com touca de flanela e coturno no Sol em pleno verão. Um dia o frevo vai fazer um sucesso danado e as pessoas de Seattle vão andar com roupinhas de frevo no inverno”, brinca Fábio Trummer, vocalista da Eddie.

A onda grunge também teve seus reflexos na cena musical do Recife. “Surgiu um monte de banda querendo ser grunge, mas nenhuma de expressão. Algumas incluíram músicas do Nirvana no repertório, a Eddie, inclusive, tocava ‘Territorial Pissings’ (a mais pauleira do ‘Nevermind’)”, conta Trummer. “O Nirvana foi a primeira banda mal-amanhada a subir no palco para fazer barulheira. Eles abriram pros maloqueiros, no Recife mesmo ainda tem muito disso”, observa Mateus Alves, baixista da Chambaril e Profiterólis.

Mas para o vocalista da Eddie, o trio formado por Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl não chegou a interferir nas busca por uma sonoridade própria das bandas locais. “Eles deram uma sacudida na indústria, mas me parecia uma fórmula já conhecida. Uma volta ao básico, embora com muita força e verdade no som. Aquela era uma época que pedia outros temperos, como o afrobeat, reggae, jazz, música brasileira e o funk metal. Este sim, norteou a primeira metade dos anos 90″, avalia Trummer.

04
Abr
09

O “nirvana” de Kurt Cobain no Hollywood Rock

O ”nirvana” de Kurt Cobain
no Hollywood Rock

Thiago Corrêa

Em quase sete anos de existência, o Nirvana simplesmente conquistou tudo o que está ao alcance de uma banda de rock. Com a simplicidade punk de suas músicas e uma postura de palco avassaladora de tão verdadeira, a banda de Seattle gravou o antológico álbum “Nevermind”, viu “Smells like teen spirit” virar o hino de uma geração e desmontou a lógica pirotécnica do mainstream dos anos 80.

Não bastasse tudo isso, Kurt Cobain ainda ficou marcado na mente dos brasileiros pela coragem de ter simulado uma masturbação e cuspido em nada menos que uma câmera da Rede Globo. As imagens foram registradas durante a transmissão do extinto festival Hollywood Rock de 1993, na única visita da banda ao Brasil, e rechearam o ótimo documentário sobre a banda – “Live! Tonight! Sold out!”.

Visivelmente perturbado, já em processo de decomposição causado pela depressão e dependência das drogas, o líder do Nirvana fez uma apresentação tumultuada que ainda hoje é difícil de ser digerida. “Foi uma das coisas mais estranhas que eu vi. O som estava péssimo e a banda confusa, errando as músicas, era tudo muito doido”, recorda o sound designer Peter Nóia, que assistiu ao show de São Paulo.

Apesar de ter sido um dos momentos mais rock’n'roll que o Brasil já viu, a apresentação do Nirvana não agradou nem mesmo os integrantes da banda. “Dava para perceber que Krist Novoselic estava constrangido e Dave Grohl irritado com a situação. Eles olhavam muito pouco para a plateia, não era uma banda a vontade. Parecia um show particular de Kurt”, observa o sound designer.

Ainda adolescente na época, Peter estava próximo ao palco quando Kurt Cobain destruiu sua guitarra e jogou os destroços no público. “Um pedaço bateu num cara que estava na minha frente. Teve um pouco de pânico na hora por causa do sangue. As pessoas queriam levar o cara pro posto médico, mas ele queria ficar vendo o show”, lembra. “Hoje vejo que Kurt estava querendo exorcizar o que estava sentido na hora”, analisa o sound designer.