Um lixo para se guardar na prateleira
Thiago Corrêa
À primeira vista, o “Livro das lamúrias” da pernambucana Luciana Lins, mais conhecida como Lulina, não passa de uma lixeira cheia de bolas de papel, identificada por uma plaquinha amarrada com barbante que indica o nome da obra e de sua autora. Mas, depois de uma cutucada, você descobre as palavras escritas nas folhas amassadas e então o motivo do formato. Tratam-se de lamúrias, esses lamentos que escrevemos num rompante de (in)consciência raivosa ou de profunda tristeza e não raro terminam na lata de lixo pela falta de elaboração típica dos impulsos.
O formato, no entanto, serve como piada disso tudo, já que as bolas de papel revelam textos curtos de veia cômica e, principalmente, a preocupação da autora com a forma. “Queria que o formato fosse a ideia. Não é um livro pretensioso. Se disserem que é um lixo, então estão elogiando”, brinca. O livro foi lançado em outubro do ano passado em São Paulo e é feito artesanalmente pela própria autora.
Boa publicitária que é, Lulina sabe se comunicar através de poucas palavras. “Algumas frases são independentes do formato, brincam com as coisas da gramática, o que acaba sendo um treino para minha profissão”, explica ela. Mas é observando a relação do “Livro das lamúrias” com a forma que ele deixa de ser apenas um jogo divertido para assumir um peso artístico. A autora ultrapassa o recurso textual para construir suas idéias.
Como as lamúrias são temáticas, Lulina também as trabalha a partir do suporte que as carrega, promovendo o diálogo entre as palavras e o meio. No caso, o papel amassado. Das 61 lamúrias, seis brincam com o tema – sublimadas, didáticas, do papel, carnavalescas, masoquistas e hipocondríacas. Em outras, a autora revela sua preocupação visual com as palavras numa página em branco.
Exemplo disso é a lamúria da solidão que aparece sozinha no meio de uma página A4, a megalomaníca que vem impressa numa folha A3 e a de amor que surge apenas na metade direita da página. Lulina ainda trabalha esse aspecto da obra através do visual das próprias palavras, como é o caso da lamúria médica que vem em forma garranchos ilegíveis, da corretiva trazendo um ajuste feito a mão, do vazio nos lamentos da falta de tempo ou da interrupção brusca presente na lamúria inacabada.