Posts Categorizados ‘Literatura

19
Mai
09

Livro de artista: Um lixo para se guardar na prateleira

Um lixo para se guardar na prateleira
Thiago Corrêa

À primeira vista, o “Livro das lamúrias” da pernambucana Luciana Lins, mais conhecida como Lulina, não passa de uma lixeira cheia de bolas de papel, identificada por uma plaquinha amarrada com barbante que indica o nome da obra e de sua autora. Mas, depois de uma cutucada, você descobre as palavras escritas nas folhas amassadas e então o motivo do formato. Tratam-se de lamúrias, esses lamentos que escrevemos num rompante de (in)consciência raivosa ou de profunda tristeza e não raro terminam na lata de lixo pela falta de elaboração típica dos impulsos.

O formato, no entanto, serve como piada disso tudo, já que as bolas de papel revelam textos curtos de veia cômica e, principalmente, a preocupação da autora com a forma. “Queria que o formato fosse a ideia. Não é um livro pretensioso. Se disserem que é um lixo, então estão elogiando”, brinca. O livro foi lançado em outubro do ano passado em São Paulo e é feito artesanalmente pela própria autora.

Boa publicitária que é, Lulina sabe se comunicar através de poucas palavras. “Algumas frases são independentes do formato, brincam com as coisas da gramática, o que acaba sendo um treino para minha profissão”, explica ela. Mas é observando a relação do “Livro das lamúrias” com a forma que ele deixa de ser apenas um jogo divertido para assumir um peso artístico. A autora ultrapassa o recurso textual para construir suas idéias.

Como as lamúrias são temáticas, Lulina também as trabalha a partir do suporte que as carrega, promovendo o diálogo entre as palavras e o meio. No caso, o papel amassado. Das 61 lamúrias, seis brincam com o tema – sublimadas, didáticas, do papel, carnavalescas, masoquistas e hipocondríacas. Em outras, a autora revela sua preocupação visual com as palavras numa página em branco.

Exemplo disso é a lamúria da solidão que aparece sozinha no meio de uma página A4, a megalomaníca que vem impressa numa folha A3 e a de amor que surge apenas na metade direita da página. Lulina ainda trabalha esse aspecto da obra através do visual das próprias palavras, como é o caso da lamúria médica que vem em forma garranchos ilegíveis, da corretiva trazendo um ajuste feito a mão, do vazio nos lamentos da falta de tempo ou da interrupção brusca presente na lamúria inacabada.

04
Mar
09

Literatura: Heroína e Rock’n'Roll – Nikki Sixx

O diário da autodestruição
Thiago Corrêa

Natal de 1986. Enquanto os católicos se reuniam após a ceia para assistir à Missa do Galo, o baixista e principal compositor do Mötley Crüe, Nikki Sixx, acordava nu, com uma agulha enfiada no braço, debaixo da árvore de Natal montada em sua mansão em Van Nuys, distrito de Los Angeles. Sozinho, sem amigos ou familiares por perto para compartilhar sua angústia, Nikki Sixx começa a fazer anotações num diário, que 22 anos depois é publicado como livro no Brasil. “Heroína e Rock’n'Roll: o diário de um ano devastador na vida de uma estrela do rock” sai pela editora Larousse, com a contribuição do jornalista Ian Gittins.

A edição é luxuosa, em capa dura, papel couchê, diagramação modernosa, repleta de fotos e ilustrações, que contribuem para dar ao livro um tom pop, amenizando o conteúdo pesado dos textos. No intervalo de um ano, o volume de 447 páginas registra o processo de autodestruição de Nikki Sixx, facilitados pelo cerco de traficantes de olho na mina de ouro de uma estrela de rock, resultando em surtos paranóicos escondidos no closet e culminando numa overdose na antevéspera do Natal de 1987.

Os relatos do diário vêm acompanhados de comentários feitos por gente que fazia parte do círculo de amizade de Nikki Sixx e do próprio baixista, após ter se recuperado do vício de cocaína e heroína. O recurso é organizado no mesmo estilo de “Mate-me Por Favor”, livro escrito por Legs McNeil e Gillian McCain que virou a bíblia do movimento punk. As revisões históricas ajudam a documentar e contextualizar as situações, oferecendo novos pontos de vista através de discursos diretos dos entrevistados, além de revelar o processo de transformação que as personagens envolvidas passaram nessas duas décadas.

As mudanças mais abruptas podem ser percebidas no tom moralista do discurso de Nikki Sixx em relação as drogas e principalmente nos comentários religiosos de Vanity, uma ex-dançarina de Prince que se envolveu com o baixista numa relação tumultuada e hoje louva a Deus. Já as anotações originais se alternam entre a devoção ao efeito de expansão da mente das drogas e o de desespero pela necessidade de continuar se injetando, como uma forma de esquecer o sentimento de abandono criado pelo descaso da mãe durante sua infância.

Mas nem tudo diz respeito ao vício. O livro também serve como registro de um momento de rock que já não existe mais, como bem resumiu Randy “Carneiro” Robinson, personagem de Mickey Rourke no filme “O Lutador”, dizendo que após Kurt Cobain a música perdeu o caráter de diversão. Em meio ao turbilhão de prazeres e depressões potencializados pela droga, é possível ter uma amostra do amor de Nikki Sixx pela música, entender seu processo criativo, o desgaste nas relações internas entre os integrantes do Mötley Crüe, os bastidores da gravação de “Girls, Girls, Girls” e da turnê do disco. Tudo com direito a bebedeiras, orgias e confusões em hotéis, um comportamento comum às grandes bandas até a década passada, que era financiado pelos montes de dinheiro que circulavam na indústria fonográfica, quando o Guns N’ Roses ainda batalhava para ser o sucesso que foi e nem se sonhava com internet.

19
Nov
08

Literatura: Galiléia – Ronaldo Correia de Brito

As vísceras do Sertão
Thiago Corrêa

Um livro sobre o Sertão. “Galiléia”, romance de Ronaldo Correia de Brito, é um ensaio ficcional sobre essa região que se instalou com tons míticos em nosso imaginário. Nele, o autor usa como pretexto a viagem de três homens (Adonias, Ismael e Davi) ao Sertão dos Inhamuns, no Ceará, para desconstruir essa imagem de um lugar isolado do mundo, preso a um tempo onde os homens adquiriam a aparência rústica da luta pela sobrevivência diária, sob a sombra da vocação para a tragédia.

Autor da peça “Baile do Menino Deus” e dos livros de contos “Faca” e “O Livro dos Homens”, Brito estréia no romance, desfrutando a vastidão espacial do gênero como se estivesse vagando no vazio do Sertão. Uma transição textual que se revela num trabalho meticuloso, de construção em cima de longos diálogos, no emaranhado de tramas e em experimentações na linguagem, como o recurso visual de simular a desatenção de Adonias com espaços em branco isolando palavras e em cortes não-lineares.

Dessa forma, Brito explora a travessia à “Galiléia” – fazenda onde os três primos cresceram e o avô Raimundo Caetano agoniza seus últimos suspiros – como a linha condutora da narrativa. A dubiedade do caráter das personagens e dos sentimentos de reencontro/despedida serve de metáfora à crise de identidade dos sertanejos. À medida que a caminhonete de Ismael avança pela estrada, o escritor promove o encontro de um Sertão conectado à internet, de mulheres emancipas pelo trabalho na confecção de redes e de motocicletas substituindo cavalos; com os cadáveres da memória, desenterrando a origem da região, baseada em teorias migratórias e de miscigenação presentes em nossa formação cultural.

Uma ligação que se dá em sutilezas. Nas primeiras páginas, citações à banda inglesa Radiohead e ao cantor Damien Rice. Referências a laptops, ao Google, bandas de forró estilizado, que logo são substituídas pelo peso da mitologia grega (Minotauro, Elektra, Édipo), das teorias de Freud e do existencialismo, corrente filosófica que tem importância particular no livro. Se o filósofo romeno Emil Cioran é citado, “O Estrangeiro”, de Albert Camus, aparece disfarçada no sentimento de inadequação dos viajantes e numa cena de violência de “Galiléia”, que remete ao assassinato da obra camusiana.

Aos poucos, lembranças que levaram os primos a abandonarem a Galiléia são desencavadas na poeira do abandono em que se encontra a região, sugerido na imagem que ilustra a capa do livro. O romance é um diálogo com os mortos, um reencontro com os fantasmas, personificados em Raimundo Caetano, último guardião das angústias sertanejas adormecidas na memória da família Rego Castro.

Serviço
Lançamento do livro “Galiléia”, de Ronaldo Correia de Brito
Hoje, às 19h
Livraria Cultura, Recife Antigo

19
Nov
08

Entrevista | Ronaldo Correia de Brito

Nesse livro você escreve um ensaio sobre o Sertão, sua origem e suas mudanças. Como você entende essa transformação?
A população do campo é mínima, o Sertão é um deserto inabitado. Falo de um mundo real como vejo hoje, mas impregnando ele de mágica, de uma mitologia mais antiga, que já não existe mais. Minha busca em “Galiléia” foi aproximar dois continentes que se tornaram incomunicáveis. A população que hoje habita esse universo está desenraizada. O que sobrevive não é como prática de sobrevivência e de costume, mas como folclore, brincadeira. Monta-se a cavalo não para pegar boi para brincar, para ganhar prêmios. As pessoas insistem na romantização de um mundo rural que não existe.

“Galiléia” marca uma ruptura da sua obra com o Sertão mítico?
Tento inaugurar um novo tempo para esse Sertão. Nessa obra, tento fazer com que as pessoas olhem para esse mundo que foi tão estereotipado pelo cinema e por novelas de televisão com sotaques terríveis. Tento fazer com que as pessoas enxerguem uma perspectiva real, mas não abandono o mito. O mito não é algo que está no plano imaginário, mas é algo que dialoga com o real. Se você reparar o personagem Domísio, que morreu há 300 anos, de fato ele aparece. Quando Adonias vai até lá e conversa com ele, é como se Domísio estivesse de fato ali, esperando por esse encontro. Isso exige um certo esforço do leitor, alguns leitores tiveram dificuldade em entrar nesse clima, em que mito e realidade se confundem.

Essa história de Domísio está no conto “Faca”. Como é a relação de “Galiléia” com sua obra?
É uma história familiar que aconteceu de fato e, obviamente, reconto como ficção. Conto ela no livro “Faca” e aparece parcialmente em “O Livro dos Homens”, no primeiro conto “O Que Veio de Longe”. A literatura para mim é a construção de um universo. Se você pega um escritor como Gabriel García Márquez, ele tem um universo onde todos os personagens são comunicantes. É como se personagens passassem de um lugar para outro. Acho que consigo isso fazendo com que pedaços de histórias reapareçam. Elas vão se reorganizando, se reestruturando, vão sendo recontadas, aparecem de nova forma. É uma maneira de criar um mundo, de inventar um universo ficcional.

Nesse seu universo, existe alguma relação com Camus? Isso é intencional?
Minha geração é pós-existencialista. Fui marcado pelo existencialismo camusiano, como, sem ter sido marcado por Camus, há uma semelhança grande entre o Fabiano de “Vidas Secas” e o Mersault de “O Estrangeiro” de Camus. Acho que no Sertão é bem fácil de encontrar esse pós-existencialismo, tanto que o filósofo que eu cito é Cioran, um filósofo romeno existencialista. Parte da justificativa do crime de Adonias, ele busca na filosofia de Cioran, que é extremamente pessimista. Os livros não estão isolados, eles dialogam. Se você pega o absurdo no teatro, ele dialoga com o absurdo na literatura, com o existencialismo; os simbolistas dialogam uns com os outros. Não é nada proposital, é mais do que natural que eu cite ou referende Camus.

Como é seu processo criativo? Você faz pesquisas antes de escrever?
Eu trabalho com uma memória inventada. Minha memória já é bastante contaminada pela fantasia. Mas certos elementos, mais sociológicos, mais antropológicos, é resultado de exaustivas leituras e pesquisas que são adaptadas para essa ficção.

ENTREVISTA | RONALDO CORREIA DE BRITO

Seus dois livros anteriores eram de contos. Como foi essa experiência como o romance?
Foi um processo difícil, é diferente. Sou um contista muito econômico e, mesmo nessa narrativa enxuta, já sou rigoroso, contido, exato. Como uma pessoa dessas pode partir para um romance, que é um tipo de literatura em que tudo cabe, e você tem que dissertar, encher páginas e páginas com cenários? Se você perceber eu adotei um recurso de usar muitos enredos. Isso é por conta da minha narrativa, muito seca. Trabalho com ossos, quase não uso gordura.

Mas você sentiu mais liberdade em explorar a linguagem?
Sim, por outro lado, o romance possibilita coisas que não cabem num conto. Discussões, longas brincadeiras, como a tensão divagante de Adonias em que eu ilustro deixando longos buracos na narrativa e também remete aos livros do avô, parcialmente comidos pelas traças e cupins. Brinco com isso fazendo buracos na escuta que ele faz. O romance permite diálogos, longas conversas, conceituações. Levanto questões da nossa formação cultural e social. Isso só é possível no romance. O conto não deixa, não tem lugar. No romance cabe tudo e você pode jogar nele o que quiser.

10
Nov
08

Fliporto 2008

Muito barulho por (quase) nada
Thiago Corrêa*
 
PORTO DE GALINHAS – Por mais questionável que tenha sido a quarta Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto), é preciso reconhecer que houve avanços em relação às edições anteriores. Ao contrário do ano passado, a programação de 2008 foi cumprida sem maiores transtornos e com a presença dos principais nomes do evento; apesar dos atrasos, cancelamento de dois debates e ausências de palestrantes no sábado e uma mudança de última hora na agenda do domingo para a inclusão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, falando sobre seus livros. No entanto, as melhorias da Fliporto tem se dado a passos lentos.
 
Com uma grade que já era extensa e este ano ficou ainda maior, nomes interessantes como o do poeta americano Quincy Troupe (autor de uma biografia de Miles Davis), do inglês Patrick Chabal (especialista em literatura lusófona africana), do poeta moçambicano Marcelino dos Santos e outros autores da África portuguesa acabam se perdendo entre os cerca de 180 convidados e quase 60 debates que envolvem a Fliporto. Um equívoco que precisa corrigido na próxima edição, com a diminuição do número de atrações, tirando da programação oficial espaços desnecessários como a egocêntrica posse do curador-geral do evento, Antônio Campos, como cônsul em Ipojuca e Pernambuco.
 
E mesmo nos momentos quando os que importavam na Fliporto deveriam ser donos da palavra, o amadorismo da organização terminou por ofuscar ainda mais a presença desses autores. Problemas que prejudicaram a mesa “Literatura Angolana”, uma das mais concorridas do evento. O trio de palestrantes angolanos Pepetela, Ondjaki e José Eduardo Agualusa mal tiveram tempo para expor suas idéias, com as intromissões vazias dos apresentadores e das perguntas prolixas da platéia.
 
Deficiências que permearam em boa parte das palestras e atingiu seu auge na de sábado “Quando o Escritor é Editor”, mediada pelo poeta Flávio Chaves. Com seis debatedores competentes e apenas uma hora de duração, quem mais usou o microfone foi o coordenador da mesa, desperdiçando o tempo para citar a presença de amigos e improvisar pseudo-poesias em homenagem a Fliporto. Pior, ainda teve a indelicadeza de chamar a atenção do palestrante João Gabriel de Lima, editor da revista Bravo, pedindo agilidade e atenção ao tema.
 
Obstáculos para o aprofundamento de idéias que parecem não destoar do clima de descaso do evento com a literatura. A programação noturna da Fliporto, na Casa Latino-América, é o maior exemplo disso. Espécie de “Ilha de Caras” feita por novos ricos, a Casa dá mais ênfase ao clima de celebridades como Elke Maravilha e Luiza Brunet; do que aos lançamentos de livros marcados para o espaço.
 
A sorte, porém, é que a maioria dos convidados esbanjaram simpatia nos corredores, atendendo a pedidos de autógrafos do público, posar para fotos e mesmo conversar sobre o que deveria ser debatido durante as palestras. Só assim, deu para conhecer um pouco do compromisso da literatura africana com o processo de superação das guerras civis. “É evidente que a literatura tem que refletir isso. Mesmo quando não se quer escrever sobre isso, há sempre um ambiente, uma sugestão qualquer que faz lembrar o que o povo angolano viveu”, disse Pepetela, vencedor do prêmio Camões de 1997.
 
Ainda assim, a Fliporto mostrou sua força este ano. Nos quatro dias de evento, segundo os organizadores, cerca de 17 mil pessoas trocaram o fim de semana ensolarado na praia de Porto de Galinhas para participar das atividades e assistir a palestras sobre uma literatura longe dos holofotes da mídia. Para o próximo ano, a temática do evento será a literatura da Península Ibérica.
 
* O jornalista viajou a convite da Fliporto