Posts Tagged ‘livro de artista

19
mai
09

Livro de artista: Livros que precisam de outro tipo de leitores

Livros que precisam de outro tipo de leitores
Thiago Corrêa

Para uma geração que ganhou vinil dos Trapalhões, gravou fita cassete do Guns’N’Roses, gastou mesadas em CDs do Radiohead e agora entope o ipod com música para uma semana inteira; chega a ser estranho perceber que os livros continuam sendo a mesma maçaroca encadernada de folhas de papel dos tempos de jardim de infância. Por ser cansativa a leitura a tela de computador, o suporte livro tem sobrevivido sem maiores problemas ao apocalipse da internet. Mas isso não significa que exista apenas um único formato para a produção de livros.

Desde as vanguardas do início do século passado, existe a tendência entre as artes visuais de desvirtuar o objeto livro. “Cada época tem sua leitura, seu espírito, mas o livro como suporte não-convencional já é experimentado desde o Dadaísmo. Como sempre procurei me informar, procuro trabalhar com esse suporte não como uma novidade, mas fazendo uma releitura, algo de minha época”, analisa Paulo Bruscky, que já desenvolveu mais de 300 obras desse tipo.

A função dos chamados livros deixa de ser a leitura, ao menos no sentido tradicional que estamos acostumados a relacioná-la com literatura. Os chamados livros de artista podem assumir qualquer forma imaginada por seus autores, devendo ser apreciados com a mesma subjetividade de uma instalação ou performance. “Um livro de artista não precisa ter texto. O bom é quando o artista desvirtua o sentido do objeto. Nós subvertemos a forma, esse é o principal conceito. Aparentemente não tem nada para ler, mas tem muito”, explica Bruscky.

Com produções desde a década de 70, Bruscky é um dos poucos artistas nacionais que ainda trabalha com o suporte livro. “Não há interesse. Ninguém quer editar um livro que não serve para nada. É raro ter um artista com edições feitas, a maioria faz exemplares únicos. Mas é um dos segmentos que mais gosto de fazer”, lamenta. Como uma forma de preservar esse material, o artista mantém uma coleção que passa de mil exemplares, incluindo produções do grupo Fluxus, e já chegou a organizar algumas mostras.

Em boa parte de suas obras, Bruscky tem o cuidado de não entregar a ideia de bandeja e sim fazer com que as pessoas as explorem sensorialmente para entendê-las. É o caso, por exemplo, de “Pós-modernistas”, criada em 1992. De longe se trata apenas de um pequeno pacote branco, mas quando ele é manuseado, a embalagem translúcida revela que o que está dentro é um livro chamado “Modernistas”. “Às vezes pego um formato mais acadêmico, até para ironizar a estrutura do livro. Já trabalhei com cheiro e impermeabilidade, porque perdi muita coisa nas enchentes. Meus filhos sempre lidaram com esses livros para tomar banho e, curiosamente, hoje eles gostam de ler”, relata.

19
mai
09

Livro de artista: Um lixo para se guardar na prateleira

Um lixo para se guardar na prateleira
Thiago Corrêa

À primeira vista, o “Livro das lamúrias” da pernambucana Luciana Lins, mais conhecida como Lulina, não passa de uma lixeira cheia de bolas de papel, identificada por uma plaquinha amarrada com barbante que indica o nome da obra e de sua autora. Mas, depois de uma cutucada, você descobre as palavras escritas nas folhas amassadas e então o motivo do formato. Tratam-se de lamúrias, esses lamentos que escrevemos num rompante de (in)consciência raivosa ou de profunda tristeza e não raro terminam na lata de lixo pela falta de elaboração típica dos impulsos.

O formato, no entanto, serve como piada disso tudo, já que as bolas de papel revelam textos curtos de veia cômica e, principalmente, a preocupação da autora com a forma. “Queria que o formato fosse a ideia. Não é um livro pretensioso. Se disserem que é um lixo, então estão elogiando”, brinca. O livro foi lançado em outubro do ano passado em São Paulo e é feito artesanalmente pela própria autora.

Boa publicitária que é, Lulina sabe se comunicar através de poucas palavras. “Algumas frases são independentes do formato, brincam com as coisas da gramática, o que acaba sendo um treino para minha profissão”, explica ela. Mas é observando a relação do “Livro das lamúrias” com a forma que ele deixa de ser apenas um jogo divertido para assumir um peso artístico. A autora ultrapassa o recurso textual para construir suas idéias.

Como as lamúrias são temáticas, Lulina também as trabalha a partir do suporte que as carrega, promovendo o diálogo entre as palavras e o meio. No caso, o papel amassado. Das 61 lamúrias, seis brincam com o tema – sublimadas, didáticas, do papel, carnavalescas, masoquistas e hipocondríacas. Em outras, a autora revela sua preocupação visual com as palavras numa página em branco.

Exemplo disso é a lamúria da solidão que aparece sozinha no meio de uma página A4, a megalomaníca que vem impressa numa folha A3 e a de amor que surge apenas na metade direita da página. Lulina ainda trabalha esse aspecto da obra através do visual das próprias palavras, como é o caso da lamúria médica que vem em forma garranchos ilegíveis, da corretiva trazendo um ajuste feito a mão, do vazio nos lamentos da falta de tempo ou da interrupção brusca presente na lamúria inacabada.




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