Livros que precisam de outro tipo de leitores
Thiago Corrêa
Para uma geração que ganhou vinil dos Trapalhões, gravou fita cassete do Guns’N’Roses, gastou mesadas em CDs do Radiohead e agora entope o ipod com música para uma semana inteira; chega a ser estranho perceber que os livros continuam sendo a mesma maçaroca encadernada de folhas de papel dos tempos de jardim de infância. Por ser cansativa a leitura a tela de computador, o suporte livro tem sobrevivido sem maiores problemas ao apocalipse da internet. Mas isso não significa que exista apenas um único formato para a produção de livros.
Desde as vanguardas do início do século passado, existe a tendência entre as artes visuais de desvirtuar o objeto livro. “Cada época tem sua leitura, seu espírito, mas o livro como suporte não-convencional já é experimentado desde o Dadaísmo. Como sempre procurei me informar, procuro trabalhar com esse suporte não como uma novidade, mas fazendo uma releitura, algo de minha época”, analisa Paulo Bruscky, que já desenvolveu mais de 300 obras desse tipo.
A função dos chamados livros deixa de ser a leitura, ao menos no sentido tradicional que estamos acostumados a relacioná-la com literatura. Os chamados livros de artista podem assumir qualquer forma imaginada por seus autores, devendo ser apreciados com a mesma subjetividade de uma instalação ou performance. “Um livro de artista não precisa ter texto. O bom é quando o artista desvirtua o sentido do objeto. Nós subvertemos a forma, esse é o principal conceito. Aparentemente não tem nada para ler, mas tem muito”, explica Bruscky.
Com produções desde a década de 70, Bruscky é um dos poucos artistas nacionais que ainda trabalha com o suporte livro. “Não há interesse. Ninguém quer editar um livro que não serve para nada. É raro ter um artista com edições feitas, a maioria faz exemplares únicos. Mas é um dos segmentos que mais gosto de fazer”, lamenta. Como uma forma de preservar esse material, o artista mantém uma coleção que passa de mil exemplares, incluindo produções do grupo Fluxus, e já chegou a organizar algumas mostras.
Em boa parte de suas obras, Bruscky tem o cuidado de não entregar a ideia de bandeja e sim fazer com que as pessoas as explorem sensorialmente para entendê-las. É o caso, por exemplo, de “Pós-modernistas”, criada em 1992. De longe se trata apenas de um pequeno pacote branco, mas quando ele é manuseado, a embalagem translúcida revela que o que está dentro é um livro chamado “Modernistas”. “Às vezes pego um formato mais acadêmico, até para ironizar a estrutura do livro. Já trabalhei com cheiro e impermeabilidade, porque perdi muita coisa nas enchentes. Meus filhos sempre lidaram com esses livros para tomar banho e, curiosamente, hoje eles gostam de ler”, relata.