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18
Dez
08

Virtuosi 2008: 1o. dia

Os cenários da música
Thiago Corrêa

Quarta-feira, 16 de dezembro, 17h. Enquanto as ruas de Recife se congestionavam com os carros de trabalhadores no caminho de volta para casa, um punhado de gente aproveitava o tempo para fazer uma viagem no Teatro de Santa Isabel, na noite de abertura da 11ª edição do Virtuosi. Apesar de permanecerem sentados no mesmo lugar, o público foi transportado a outros cenários através da luta de homens com seus instrumentos. Um duelo que se evidenciava em expressões faciais, sentimentos, músicas e aplausos.

Experiências sonoras que serviram de portais para tempos medievais, filmes da década de 50 e sobretudo, a selva. Se o violino de Nicolas Koeckert, o piano de Kristina Miller e o trombone do sueco Christian Lindberg resgataram lembranças em nossas memórias; Naná Vasconcelos nos pegou pelas mãos e levou a platéia para conhecer a floresta amazônica em pleno Teatro de Santa Isabel. Através de delays, instrumentos de percussão e voz; o homenageado deste ano do Virtuosi criou índios, pássaros, regeu a platéia e nos fez navegar pelo rio Amazonas.

Um momento mágico que coroou uma noite memorável que começou com a bela série de concertos sobre as composições de Marlos Nobre, executadas pelo próprio pernambucano, mais Leonardo, Rafael e Ana Lúcia Altino. Em seguida, destaque para o dueto entre Nicolas Koeckert e Kristina Miller tocando o “Concerto Fantasia sobre a Ópera ‘Porgy and Bess’”, de Gershwin. E ainda a apresentação de Lindberg, com as bem humoradas “Bombay Bay Barracuda” e “Solo for Sliding Trombone”, de John Cage. O Virtuosi continua sua programação esse fim de semana com séries de concertos às 17h, 19h e 21h no Teatro de Santa Isabel.

17
Dez
08

Entrevista – Naná Vasconcelos

O universo musical de Naná Vasconcelos
Thiago Corrêa

Como você recebeu essa homenagem do Virtuosi?
Agradeço muito por essa homenagem, foi uma surpresa muito grande. Ainda mais por se tratar do Virtuosi, que sempre achei um evento importante por trazer músicos extraordinários para o Recife. E agradeço pela oportunidade de mostrar esse meu trabalho que é pouco conhecido aqui, onde fico limitado à abertura do Carnaval. É o som dos extremos. Um presente para mim porque ano passado eu estava no hospital, me operei dia 13.

Essa a primeira vez que você toca em Recife o “Concerto para Berimbau e Oquestra”. Existe alguma explicação para que isso esteja acontecendo só agora, quase 30 anos depois?
Depende muito de quem dirige a cultura. Eu venho da música popular e só faço esse conceto raramente. É difícil ter um maestro aberto a essa coisa, porque isso é algo fora do padrão. São os extremos da música.

O que é mais difícil, se apresentar com uma orquestra ou reger o Encontro dos Maracatus?
No encontro é mais um trabalho de reger as forças. Aqui é diferente, tem o desafio do que pode ser feito, ver se é possível. Não é uma questão de exibicionismo, de ver quem toca mais rápido, mas da música em si. Não é nem que seja difícil, mas é o desafio de ver a respiração da música, de encaixar os timbres, promover o encontro do berimbau com os outros instrumentos de corda, de mostrar que existe harmonia entre eles.

Existe uma fronteira entre música erudita e popular?
A música própria não existe. São as pessoas que classificam assim e querem separar as pessoas que tocam lendo e os que não precisam ler para tocar. São as pessoas que põem isso na cabeça, fazendo música de olho no passado e de costas para coisas novas. É uma bobagem pensar assim, com todo respeito.

O que muda no trabalho de composição para música popular e erudita?
O berimbau não foi feito especificamente para a capoeira, nem o pandeiro para o samba. Muda nessa proposta de querer mais. Villa-Lobos foi muito importante para mim nesse sentido, me mostrou o aspecto visual da música. É possível ver os cenários caipiras através da sua música. E Jimi Hendrix me ensinou que os instrumentos não têm limitação. Se você se dedicar, você encontra novos sons. Não descobri nada, tudo estava lá, mas ninguém tinha tocado berimbau desse jeito antes.

Como está sendo a interação com os músicos? Você já está preparando alguma surpresa?
Eu cheguei hoje (segunda-feira) no hotel, trouxe meus instrumentos para cá. Mas Ana Lúcia já disse que tem u percussionista da Dinamarca que está querendo me conhecer. Para mim isso é ótimo, trocar experiências. Pode até ser que eu apareça em outro dia da minha apresentação para fazer um dueto, testar novas experiências.