Tom Zé!!!!!!!!!!!
Thiago Corrêa
Já soa comum dizer que Tom Zé fez outro show histórico em Recife. Mas deixar de usar o termo “histórico” para descrever a apresentação do baiano de Irará, sexta-feira, no Teatro da UFPE, seria uma injustiça. Dessa vez no clima intimista de um teatro, ele aproveitou para dar uma aula-espetáculo onde misturou música, elementos cênicos, História, filosofia e política de guerrilha.
Como um regente do caos, Tom Zé instigou uma revolução interna parecida com o sentimento despertado pela peça “Os Sertões”, encenada aqui, ano passado, por José Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina. Com sua música subversiva, ele desmontou ideologias e rótulos que, por meio de uma política de controle social, entranharam-se em cidades periféricas feito o Recife.
Um show que não se fez apenas com músicas. Nos intervalos, Tom Zé contextualizou canções antigas e as do disco “Estudando a Bossa: Nordeste Plaza”, situou a importância da Bossa Nova para a imagem do Brasil no exterior, fez análises sobre o discurso do funk carioca e a liberdade sexual feminina, exaltou a obra de Gilberto Freyre e disparou críticas aos intelectuais da Universidade de São Paulo (USP).
Embora contadas com o jeito peculiar e bem humorado de Tom Zé, sua voz ecoou pelo Teatro da UFPE como a de um líder que, aos 72 anos, ainda tem disposição para se rebelar e desenvolver uma linguagem própria. Um espírito que ultrapassa o processo criativo de composição e se estende às suas apresentações ao público.
Nesse show, o tropicalista não se limitou a apenas repetir o que está nos discos. Ele deu vida às canções como se estivesse as recriando ali, no palco. Uma estratégia que ele metaforiza durante a música “João nos Tribunais” desmontando um violão e usando suas peças para conseguir novos sons.
Com gestos ansiosos de menino, Tom Zé foi orientando os seis músicos que o acompanhavam, o técnico de iluminação e mesmo o público. Em “Augusta, Angélica e Consolação”, por exemplo, o baiano parou no meio, recomeçou de um verso, pediu mais luz e chamou atenção para a beleza do verso.
Intervenções que, quando conduzidas por Tom Zé, ganham um tom orgânico, de ensaio, que só poderiam acontecer naquele momento, com àquela platéia. Os privilegiados que participaram daqueles instantes dificilmente esquecerão desse show. Uma aula-espetáculo baseada no improviso, com surpresas capazes de despertar risos e sustos que vão continuar ecoando na memória.