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01
Dez
08

Cobertura: Tom Zé

Tom Zé!!!!!!!!!!!
Thiago Corrêa

Já soa comum dizer que Tom Zé fez outro show histórico em Recife. Mas deixar de usar o termo “histórico” para descrever a apresentação do baiano de Irará, sexta-feira, no Teatro da UFPE, seria uma injustiça. Dessa vez no clima intimista de um teatro, ele aproveitou para dar uma aula-espetáculo onde misturou música, elementos cênicos, História, filosofia e política de guerrilha.

Como um regente do caos, Tom Zé instigou uma revolução interna parecida com o sentimento despertado pela peça “Os Sertões”, encenada aqui, ano passado, por José Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina. Com sua música subversiva, ele desmontou ideologias e rótulos que, por meio de uma política de controle social, entranharam-se em cidades periféricas feito o Recife.

Um show que não se fez apenas com músicas. Nos intervalos, Tom Zé contextualizou canções antigas e as do disco “Estudando a Bossa: Nordeste Plaza”, situou a importância da Bossa Nova para a imagem do Brasil no exterior, fez análises sobre o discurso do funk carioca e a liberdade sexual feminina, exaltou a obra de Gilberto Freyre e disparou críticas aos intelectuais da Universidade de São Paulo (USP).

Embora contadas com o jeito peculiar e bem humorado de Tom Zé, sua voz ecoou pelo Teatro da UFPE como a de um líder que, aos 72 anos, ainda tem disposição para se rebelar e desenvolver uma linguagem própria. Um espírito que ultrapassa o processo criativo de composição e se estende às suas apresentações ao público.

Nesse show, o tropicalista não se limitou a apenas repetir o que está nos discos. Ele deu vida às canções como se estivesse as recriando ali, no palco. Uma estratégia que ele metaforiza durante a música “João nos Tribunais” desmontando um violão e usando suas peças para conseguir novos sons.

Com gestos ansiosos de menino, Tom Zé foi orientando os seis músicos que o acompanhavam, o técnico de iluminação e mesmo o público. Em “Augusta, Angélica e Consolação”, por exemplo, o baiano parou no meio, recomeçou de um verso, pediu mais luz e chamou atenção para a beleza do verso.

Intervenções que, quando conduzidas por Tom Zé, ganham um tom orgânico, de ensaio, que só poderiam acontecer naquele momento, com àquela platéia. Os privilegiados que participaram daqueles instantes dificilmente esquecerão desse show. Uma aula-espetáculo baseada no improviso, com surpresas capazes de despertar risos e sustos que vão continuar ecoando na memória.

17
Nov
08

Cobertura: Otto + Recife Jazz Festival

Otto rouba a cena
em festival de jazz

Thiago Corrêa

Falem o que for de Otto. Digam que ele não consegue formar frases com mais de cinco palavras, que é desafinado ou que sua música ficou antiga, presa ao passado. Pode até ser, mas insinuar falta de talento a ele já se configuraria uma injustiça. Em seu show na Praça do Arsenal, marcando o início do Festival de Circo do Brasil, sexta-feira; o bicho-que-pula mostrou que suas qualidades não são poucas.

O cantor, natural de Belo Jardim, é carismático, tem presença de palco, coleciona uma série de hits que sobrevivem ao tempo e, o mais importante, sabe montar uma banda como poucos. Acompanhado da Jambro Band – time que reúne nomes como Pupillo (Nação Zumbi), Luciano Curumim (Curumim, Guizado) e Fernando Catatau (Cidadão Instigado) –; Otto conseguiu inserir uma semente da balbúrdia carnavalesca no público que se aglomerou em frente ao palco montado na Praça do Arsenal.

O bicho-que-pula fez uma apresentação baseada nos três discos de carreira (“Samba pra Burro”, “Condom Black”, “Sem Gravidade”) e ainda soltou músicas do seu próximo álbum. Mas o que o público queria mesmo era músicas como “Dias de Janeiro”, “Por que”, “TV a Cabo” e “Pra Quem Tá Quente”, pedidos devidamente atendidos. E a interação com a platéia foi tanta que Otto não se conteve e mostrou porque ganhou o apelido de bicho-que-pula. Jogou-se na platéia e longe do palco mesmo cantou “Bob”.

O show ainda teve outros momentos curiosos como as participações especiais do pianista-prodígio Vítor Araújo e de Ortinho. Nelas, o sentimento foi o de que o Carnaval está chegando. Com o primeiro, Otto cantou “Evocação Nº 1”, de Nelson Ferreira, e com Ortinho emendou uma cirando. Visivelmente feliz, Otto custou a sair do palco, resultando num atraso de mais de uma hora ao reinício do Recife Jazz Festival.

Já passados 20 minutos após a meia-noite, o festival retomou sua programação que se iniciara mais cedo com apresentações de Bráulio Araújo, Marcos Diniz & Mr. Trio e o argentino Francisco Lo Vuolo na Torre Malakoff. A segunda metade do evento começou destoando do clima de baile deixado por Otto.

Numa falha da organização, o show em seguida foi o do pianista americano Jeff Gardner. Ele até mostrou virtuosismo técnico, tentou ser simpático falando em português, tocando um releitura do baião; mas acabou sendo prejudicado porque sua apresentação exigia atenção e um ambiente intimista, mais fechado.

O público, que já havia se dispersado durante o show do americano, espalhou-se ainda mais após os 20 minutos de intervalo. O dano já estava feito e nem a tentativa de Spok e Chorando em PE em retomar o espírito carnavalesco fez efeito. Na já avançada madrugada, os franceses do Briegel Bros Band encerraram o primeiro dia do Recife Jazz Festival.